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segunda-feira, 27 de maio de 2024

Desenganos

 



Já não posso ser contente...

Onde se foram aqueles que me amaram...

O que é deles?

Ando perdido entre muitas  gentes...


Conselhos não segui...

E vieram os desenganos...

A vida passou tão corrida...

Hoje apenas sigo sem rumo...

A esperança está perdida...


Prazeres que tenho visto...

Sem meus entes queridos...

Já não fazem sentido...


Cheia de penas me deito...

E com mais penas me levanto...

Dia após dia...

Noite após noite...

Só as lembranças amenizam...

As minhas tantas feridas...


E de noite eu sonho...

Com dentro de mim o castigo...

Pai, mãe, irmão...

Todos se foram...

Só em Deus hoje me abrigo...


Oh...

Quem me dera ainda ser embalado...

Neste mundo  estranhável...

Ter ainda um conforto...

Desse meu olhar tão cansado...


Destino: aqui me tens...

Neste meu silêncio fustigante...

Sonhando e me iludindo...

Como foi bom meu antigamente...


Mas assim tu segues...

O outrora não é mais...

Quem sabe no vindouro...

Encontrarei a paz...


Sandro Paschoal Nogueira

Erros e acertos

 



Já bebi da Sabedoria...

E questionei os enigmas sem fim...

Já puxei da faca...

Fiz muitas coisas...

E tantas me arrependi...


Já fugi de encontros marcados...

Alguns nem cheguei a ir...

Já deixei de aceitar um abraço...

Como também com muitos dormi...


Já fui esperto...

Também tolo fui...

Já tive pressa...

E andei devagar...

Sorri, chorei...

Mas nunca deixei de sonhar...


Já enterrei todos os meus...

E com eles à cova quis descer também...

Conheci o purgatório e o paraíso...

Na saudade que vai e vem...


Por esse mundo de meu Deus...

Ingênuo sempre fui...

Alguns de mim se aproveitaram...

Hoje, cansado, deles não quero mais nada...

Já que tantos em minha jornada me faltaram...


Alguns segredos foram rompidos...

Confiei demais...

Boca fechada não entra mosca...

Aprendi como se faz...


Incompreendido eu fui...

Aprendi a dizer adeus...

Também aprendi a perdoar...

Erros alheios relevar...

Não sou perfeito...

Não sei aonde vou chegar...

Mas se Deus perdoa...

Quem sou eu para contrariar?


Tive ouro...

Tive prata...

No bolso alguns cobres...

Passei fome e aprendi a dividir o pão...

Já tomei tapa na cara...

E encontrei quem já me estendeu a mão...


Fui motivo de riso...

Fui motivo de chacota...

Muitas vezes magoado...

Mas a vida tudo ensina...

Nos ensina a ter mais cuidado...


Se um dia a juventude voltasse...

Erros e acertos sei que os repetiria...

Vivendo e aprendendo sempre...

Sendo grato pelo nascer de mais um dia...


Tenho cá comigo...

Que o céu devo esperar...

Do inferno me afastar...

E de nunca me perder...


Mas carrego em minha alma...

De ambos um bocado...

A colheita é justa...

Devo aprender a plantar com cuidado...


E assim sigo...

Todo dia aprendendo...

Entre erros e acertos...

Feliz vou vivendo...


Sandro Paschoal Nogueira

Mal sem cura

 



Ando lá sem descansar...

Entre as pedras que me fitam...

Inertes como dantes...

Nunca vão me consolar...

E rio...


Tal como andorinha...

Abro meus sonhos a voar...

Mesmo que a dor rasgue meu peito...

Pelo que não vai voltar...


Tenho amor, sem ter amores...

Este mal que não tem cura...

Já não sei se estou contente ou triste...

É o mal e é o bem que me apura...


Fico à espera de novidades...

Pois não confio em promessa alheia...

Palavras para mim em ferro e fogo devem ser forjadas...

E não na areia somente rabiscadas...


Na pele das serpentes...

Conheço muitas...

Ou entre as sombras da madrugada...

Nem promessas e nem riquezas...

Espero de gente dissimulada...


Porque só aquele que sabe...

Que nada tem e que nada possui...

Não se ilude com falso esplendor...

E também não  se engana com gente de baixo valor...


Sou do tamanho do que vejo...

Tenho projetos e ambições...

Ao vento não conto meus segredos...

E só confio em Nosso Senhor...


E assim entre as pedras sigo...

Aos solavancos do destino...

Enquanto passo sorrindo...

Enquanto elas só me fitam...


Sandro Paschoal Nogueira

Razões


 


Falam de tudo como se a razão lhes murmurasse nos ouvidos...

Falam mentiras sempre a favor do vento que as agita...

Onde tudo se vende sem asco...

Vomitam as almas doentias...


No altar do esquecimento...

A frieza está nua...

Entre sorrisos e deboches...

Cumprem a fadada sorte...


Dos sonhos sempre iguais...

A ambição querendo sempre mais...

Da inveja que corroe...

Vivenciando a falsidade ...

Do egoísmo voraz...


Será esse o pão nosso de casa dia?

Áspero degredo onde não há segredos...

Gente previsível...

Tremo e pressinto...

Adivinho os seus ais...


Pendentes do próprio espetáculo...

Entre danças funestas...

E línguas maldosas...

Triste história...

Sem história...

Vácuo de alma vazia...


Sinto-lhes o assédio...

Olhos que me fitam...

Sombras que rastejam...

Não venham me dar essa vida...

De gente falsa...

Gente fingida...


Não tenho mal nem dor

Não quero me encontrar porque não me perdi...

Nunca te pedirei o que não possas dar...

Mas só peço-te uma única coisa...

Cuides de suas próprias feridas...


Sandro Paschoal Nogueira

Embriaguez


 


Na embriaguez da cisma, um murmúrio...

Digam-lhe que amor me leva...

Já de tanto olhar cansado...

Um bem que o fosse deveras...

De tanto olhar à procura...


Desejo entranhável...

Donde mesmo este amor virá?...

Morto já é meu contentamento...

Velo meus sentimentos...

Em tantos e tantos olhares...

Sem encontrar...


Não sei onde isto há de ir ter...

Não é esta graça que quero...

Somente os céus me consentem...

Volver meus olhos aos dias nascentes...

E no coração voraz imenso...

Sufocar esse mal que tanto me dura...

Indo mais fora do caminho...

Acalentando meus sonhos sozinho...


Cousa certa que não acerto...

Pensando em estar mais perto...

Sigo sempre sonhando...

Em te encontrar em meus caminhos...


Por que é que me não disseste,

Toda a terrível verdade ?

Se eu conhecer a ventura...

Também posso perde-la cedo...


Deixo correr as horas fugidias...

E ao escapar do tempo não me entrego...

Antes amar-te em sonhos...

Do que ser árido deserto...


Sandro Paschoal Nogueira

Que bem eu lhe fiz?


 

Não sou mestre das cores...

Nem o senhor dos venenos...

Mas aprendi que as pessoas...

Não são aquilo que dizem ser...


Morei em corações...

E deixei que morassem no meu...

Construí meus sonhos...

E meus lábios muito se perderam...


Saudei a lua e as estrelas...

E pelo vento fui beijado...

Bem conhecem os mais velhos...

A que tudo repetem...

Com eles tive meu aprendizado...


Antes que tudo se perca...

Antes que tudo se esqueça...

A ingratidão...

Do espírito é a pior cegueira...

Só reconhecida após a desilusão...


Vi abismos...

Mas não a infernal descida...

Gosto amargo de alguns sentimentos senti...

Mas nem isso tirou-me a beleza da vida...


Anseios delirantes...

Tive...

Perpétuas saudades de minutos...

Acalentei...

O amor de quem quer que seja...

Clamei...

Pouco senti...

Tanto chorei...


Pus as mãos sob o rosto...

Gritos abafei...

Meus olhos marejados...

Escondi-os e os sequei...


Na embriaguez de minhas cismas...

Nos murmúrios de minha alma...

Muitas vezes confuso,  perdido...

Dobrei meus joelhos...

E orei...


De contato a contato...

Nova  vida...

Constantes aprendizados...


Do pensar na vida...

Essa entrega e fuga perpétua ...

Sim, ainda vago...


Busco em mim agora...

A vida feito festa para as vistas...

Abro-me, novamente, as portas...

Não para condenar...

Mas sim novos horizontes alcançar...


Se algum bem te fiz...

Não lamentes esta perda tal...

Mas peço-te que não me tenhas em mau juízo...

E que não me desejes o mal...


Sandro Paschoal Nogueira

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Erros e acertos




 Já bebi da Sabedoria...

E questionei os enigmas sem fim...

Já puxei da faca...

Fiz muitas coisas...

E tantas me arrependi...


Já fugi de encontros marcados...

Alguns nem cheguei a ir...

Já deixei de aceitar um abraço...

Como também com muitos dormi...


Já fui esperto...

Também tolo fui...

Já tive pressa...

E andei devagar...

Sorri, chorei...

Mas nunca deixei de sonhar...


Já enterrei todos os meus...

E com eles à cova quis descer também...

Conheci o purgatório e o paraíso...

Na saudade que vai e vem...


Por esse mundo de meu Deus...

Ingênuo sempre fui...

Alguns de mim se aproveitaram...

Hoje, cansado, deles não quero mais nada...

Já que tantos em minha jornada me faltaram...


Alguns segredos foram rompidos...

Confiei demais...

Boca fechada não entra mosca...

Aprendi como se faz...


Incompreendido eu fui...

Aprendi a dizer adeus...

Também aprendi a perdoar...

Erros alheios relevar...

Não sou perfeito...

Não sei aonde vou chegar...

Mas se Deus perdoa...

Quem sou eu para contrariar?


Tive ouro...

Tive prata...

No bolso alguns cobres...

Passei fome e aprendi a dividir o pão...

Já tomei tapa na cara...

E encontrei quem já me estendeu a mão...


Fui motivo de riso...

Fui motivo de chacota...

Muitas vezes magoado...

Mas a vida tudo ensina...

Nos ensina a ter mais cuidado...


Se um dia a juventude voltasse...

Erros e acertos sei que os repetiria...

Vivendo e aprendendo sempre...

Sendo grato pelo nascer de mais um dia...


Tenho cá comigo...

Que o céu devo esperar...

Do inferno me afastar...

E de nunca me perder...


Mas carrego em minha alma...

De ambos um bocado...

A colheita é justa...

Devo aprender a plantar com cuidado...


E assim sigo...

Todo dia aprendendo...

Entre erros e acertos...

Feliz vou vivendo...


Sandro Paschoal Nogueira

sexta-feira, 15 de março de 2024

Esperando


 

Que lucrei, eu, Senhor com o tempo perdido?

Num e noutro despojo me achando o que a vaidade me propôs...


Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê...

Mas se ninguém nos vê o que importa afinal ser ou parecer?


Escoar-se é um desperdício...

Assim como aprisionar o vento...

Pouco se ganha...

Tanto se perde...

Tantas coisas sem sentido...


Homem que sou...

Ó divina esperança onde estás que comigo brinca...

E não me convida à dança...


Tu que transforma os sombrios pedadelos em sonhos dourados...

Que nos inflige e nos obriga a levantar da cama...

Virgem de eterno devaneio...

Que hoje minhas mãos não alcançam...


A rotina é tão pesarosa...

As mesmas pessoas enfadonhas...

Dentro de mim, a noite escura e fria se anuncia...


Que me olhar não se perca...

Entre tantos outros que passam...

E farto de fadigas...

E de fragilidades tantas...

Que amanhã...

Em outro dia...

Então...

Eu floresça...


Sandro Paschoal Nogueira

quinta-feira, 14 de março de 2024

Macumba


 Quem me jogou macumba?

Pedras


 


Há entre as pedras um murmúrio de queixume...

E nada mais se ouve ao longo das ruas...

Ocultos, na agonia das casas, velhas saudades de olhos que fitam o nada...


Apressa-te, amor, que amanhã eu morro...


Destila-se de lágrimas as  preces e  a profecia...

Do que outrora havia...

Do futuro que se avizinha...

Tremem mãos...

Escondidas nas cortinas...


No abismo do pretérito foram-se os dias...

Caminhantes se vão da terra...

Perdidos na própria sombra...

Levando consigo seus sonhos e histórias...

Deixando para trás...

Apenas algumas lembranças partidas...


Não demores tão longe...

Não se esconda em lugar tão secreto...


Anos após anos...

Seguimos aprendendo mais com os desenganos...

Meu ser traçado pelo som do vento…


Apressa-te, amor, que amanhã eu morro...

Amanhã morro e não te vejo...

Amanhã morro e não te escuto...

Não demores tão longe...

Não se esconda em lugar tão secreto...


Todos passam...

As pedras não...


Queixando-se dias após dias...

Por serem ignoradas...

Dos que ainda ficam de vozes amargas...

Urdindo a grande teia... Sobre nós a vida...

Não demores tão longe amor...

Que amanhã eu morro...


Sandro Paschoal Nogueira

domingo, 10 de março de 2024

Liberdade


 

Graças a Deus que estou doido...

Que se sabe da vida?...

Dizem que finjo ou minto...

Eu simplesmente sinto...


Tudo o que sonho ou passo...

Nem sentes...

O vento levará os meus mil cansaços...


Ainda correm lágrimas...

Na soledade pensativa...

Escondida...

Disfarçada em sorrisos...


Sei que nada me é pertencente...

E lá fora na estrada...

Pensando coisas profundas...

Compreendo que sou livre...


Livre ando de enganos...

Mas de olhos postos nas coisas, distraído...

Aberto por um vento muito brando...

Acolhendo sempre um pouco de mim mesmo...


Mistério maior é este

que liga a liberdade e o homem...

Acendendo a Deus este segredo...

Fazendo-me feliz eternamente...


Sandro Paschoal Nogueira

Comprometimentos


 

Preencher os anos que nos moldam...

A que destino...

A que ritmo, sem preço...


Co’as asas que lhes pôs benigna sorte...

Amigos da ventura...

Dos homens que não conhecemos...


Enquanto a turba ralha...

Somos nós as humanas cigarras...

Somos nós os ridículos comparsas...

Que atravessam o tempo...


Asas que em certas horas...

Erguem a um campo de maior altura...

E bebemos o doce vinho em nossa honra...


Que me importa que batam a minha porta...

Importa saber da importância...

Que entre nós, sem limite, vai lavrando...

Dia após dia...

Os múltiplos comprometimentos...


Sandro Paschoal Nogueira

quinta-feira, 7 de março de 2024

Suave


 

Só te abracei...

Nos sonhos que sonhei...

Suave...

Como a dança quando o vento beija e balança...

As flores do meu jardim...


Sereno...

Sem desejos...

E do fundo de meu peito...


E no momento em que o limite extremo da ribalta mais brilha...

Mais te amei...


Um amor que tudo pede...

Um amor que tudo dá...

Sem que jamais se explique ou desenrede...

Tamanha fome de amar...


Será talvez começo…

Que a minha alma pressente…

Um consumir-se a cada instante...

Perdendo o passo antes certo...

Um consumir-se a cada instante...


Sonhar sempre...

A dura realidade dispensar...

Dor que a minha alma tem...

Por não estar aqui...

Para te amar...


Talhado é o golpe da ilusão...

Acompanhando-me os dias...

Sonhando te tenho...

Acordado...

Agonia...

Só desilusão...


Sandro Paschoal Nogueira


Fingimentos


 


De que te serve o mundo que desconheces?

Talvez, acabando, comeces…


Fazes falta?

Enfim fica triunfante da dúvida a tirania...

A sorte sem piedade...

Passando por ermas noites...

Renovando todos os dias...


Há momentos que são quase esquecimentos...


Prometem-me uns vãos cuidados...

Promessas de outros mundos perdidos...

E assim consigo...

Possuir em sonho o que morreu...

Fingir que tudo está bem...


Mas para quem finjo afinal?

Por que enganar-me nesse mal?

Medo do vazio...

Ou do que não é preenchido?


Mas olha, tal qual é...

Que pouco ou muito é dito...

Não sei se sei o que digo...

Tem hora que nem sei o que sinto...


O segredo da vida é a inquietação...

Ser isto ou aquilo ou então não ser...

Perguntas sem

resposta...

Onde em cada instante...

Pensar é não compreender...


Sandro Paschoal Nogueira

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Declive


 

No declive do tempo os anos correm...

Por mero acaso, sem saber porquê...


E antes que a bruma tire o brilho de nossos olhos...

Antes que gritemos e ninguém nos escute...

Antes que minha ausência se prenda a sua pele...

Permita-me fazer-te com o pouco que oferece-me mostrar-te o muito que posso dar-te...


Não me deixe fugir com o vento...

Ou perder-me de ti em lamentos...

Quanto mais sabemos...

Parece que mais erramos...


Ninguém já soube o que é o amor...

Se o amor é aquilo que ninguém viu...


Se devagar se vai ao longe...

Devagar te quero perto...

Se pouco me dás...

Muito te ofereço...


Tenho visto muitas coisas...

Algumas bem estranhas...


Da vida pouco entendido ...

Mas és para meus sonhos...

Todos os encantos requeridos...


Selecionei para ti essa manhã...

Para dizer-te isto...


Não tenho como voar...

De asas feridas...


Dentro de mim se acanham as certezas...


Por onde vai a vida?

Sem ti...

Será tão mal gasta...

Peito aberto em mil feridas...


Que este amor não me cegue...

Sei que nada me é pertencente...


Mas a magia evoco...


Entre seus abraços...

Abandono o peso do caminho...

E em ti me aporto...

O que estava perdido...

Por fim encontro...


Sandro Paschoal Nogueira

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Um sonho


Talvez sonhasse...

Com um mundo mais culto ...

Porém menos chato...

Com pessoas que exercitassem o cérebro...

Com o mesmo afinco que fazem com seus músculos...

Diante os espelhos...

Entre as latrinas...

Nós diversos banheiros...


Ranger de nevoeiro...

Terra de escravos...

Roupas justas...

Espíritos vazios...

Para que prego?

Para quem falo?


No fundo da virtude...

A terra é triste...

Olhos opacos...

Sorrisos sem graça...

Mãos que gesticulam...

Sem nenhuma dádiva...


Tempos estranhos...

Tempos esquisitos...

E eu que a tudo observo e sinto...

Fico perdido...

Não me acho...


Eu cavo na vida a semente da libertação...

Esquivo- me de falsos abraços...

De nojentos apertos de mãos...


Partes perdidas de um só...

Que a razão despedaçou...

As aparências tornaram-se mais importantes...

Todos querem respeito...

Anseiam ao amor...

Mas estão todos perdidos...

Caminhando em direção ao abismo...

Cada um por si...

E  tão só...


Deixo no ar...

Atrás de mim tão distante...

Os desejos de uma vida mais simples...


Plantar...

Cultivar e colher...

A verdade...

A sinceridade...

O amor tão escasso...

Hoje fadado ao fracasso...


Não há como encher a taça...

Tudo perdendo a graça...


A inocência é corrompida...

A dúvida disfarçada e mais sentida...

O purgatório decorado...

O túmulo é bem caiado...

Mas por dentro...

O mais fétido excremento...


Envelhecer é triste...

Não há novidade...

Tudo é tão repetido...

Até os sentimentos...

Nada se encontra...

Tudo é outrora...

Tudo já é perdido...


Há uma vaga brisa...

Soprada pela esperança de anos vividos...

Doçura dolorosa...

Independência da alma...

O mistério alegre e triste de quem chega e de quem parte...

De que sorri...

Enquanto a alma chora...


Sandro Paschoal Nogueira

 

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Cansaço

 



Em todos os bares um bordel...

Vadias sem preço...

Segurando paredes pomposos bêbados...


Cães esfomeados...

Magros, cansados...

O pus escorre das portas às valetas...

Jovens fúteis...

Por favores fáceis e drogas...

Tornan-se proxenetas...


Gente de bem a vagabundear com a barba crescida...

Alguns desalinhados e fetidos...

Em todos os locais de turismo da cidade...

A disfarçar o pedacinho do céu perdido...


A falência da vida que vendiam...

Escondendo dores...

Decepções...

Vazios...

Atrás de falsos valores...

Disfarçados sorrisos...


É preciso suportar...

Fingir que nada faz sentido...

Não esmiuçar as parcas moedas...

Talvez estar também sempre bêbado...

Para esconder seu segredo...


É preciso viver entre os homens...

Disfarçar a hipocrisia...

Aspirar ao amor...

Para sufocar a dor...

Do grito vazio...

Da rotina maldita...

Do cansaço de tudo...

Do cansaço de todos...

Do cansaço da vida...


Sandro Paschoal Nogueira

Acaso


 


Um vento que soprava...

Testemunha de segredos da madrugada...

Promessas desconexas surradas...

Sob a calma das estrelas...

Entre as sombras de uma rua mal iluminada...


Um copo de bebida esquecido...

Enquanto o cigarro fumegava...

As horas loucas se perderam...

No ar onde a respiração doce arfava...


Óh...

A carícia da terra...

A juventude suspensa...

As coisas mais simples...

Sei que há diferenças...

Mas tudo se esquece...

Quando a gente se ama...


E já nada mais me doer...

Melhor até se o acaso...

Fizerem-me nessa rua deserta...

Encontrar você...


Sandro Paschoal Nogueira

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Diabo


 

Se em nossas lutas não batermos de frente com o diabo, é por que devemos estar caminhando ao lado dele...

Cuidado...

domingo, 28 de janeiro de 2024

Original

 



Original é quem se origina de si mesmo...

Que encara o abismo que o chama...

Que sendo de toda a parte

não é de lugar algum...


Que planta e colhe a própria sorte...

Que faz do choro o riso...

Que amplia seus horizontes...

Tendo o céu como limite...

Não se cansa...

E se cansa...

Segura o peso e segue adiante...


Original é quem enche os copos...

Sem perder o juízo...

Que tal como um gato possui sete vidas...

Não desprezando nenhuma em qualquer esquina...


Original é aquele...

Que foi expulso do paraíso...

Que lavra o coração...

Fortalece os sentidos...

Que acima de tudo não esquece...

Mas se compraz no perdão...


Original é aquele...

Que desce às ruas...

Como se fizesse amor...

Que em madrugadas solitárias e frias...

Encontra em si mesmo o próprio calor...


Original é aquele...

Que percebe as mentiras...

Mas que com elas não se deita...

Que enfrenta os medos e as dores...

Que não perde as rédeas da vida...

Que mesmo sendo sofrida...

Cultiva o amor...


Sandro Paschoal Nogueira

Maldito

 



Maldito é o homem que confia no homem...

Que aguarda uma palavra de consolo...

Que coloca em mãos alheias seus sonhos...


Maldito é o homem que tem esperança no bem inesperado...

Que descuida-se nos próprios cuidados...

Que vai dormir tranquilo aguardando que o seu vizinho o tenha em boa estima...


Maldito é o homem que acredita que para ser feliz...

Tem que chamar a atenção...

Que coloca como opção...

Entregar seu coração...

Aos falsos amigos...

Aos lobos famintos...

Às ocasiões sem sentidos...

Ao futuro que se avizinha...

Sem estar prevenido...


Maldito é o homem...

Cuja alma inocente...

Sofre constantemente...

Pela língua maldosa...

Das pessoas hipócritas...

Das pessoas vazias...

Que enchem os seus copos...

Que arrotam o que pensam...

Sem respeito alheio...

Que o olham de lado...

De modos esguivos...


Maldito é esse homem...

Que aguarda sob o tempo...


Mas que esse homem seja bendito quando se afastar dos aflitos...

Quando se afastar das  gargalhadas altas e ruidosas...

E compreender que sendo comedido...

Confiando em seus sonhos...

Aprenderá que assim trançando seu destino...

Comprazendo em própria companhia...

Nunca estará sozinho...


Sandro Paschoal Nogueira

Sono interrompido

 



Existem saudades e fotografias...

E palavras que eu amaria ter-te dito...

Existe o sono interrompido...

E a agonia entre lençóis revolvidos...


Ainda terei o alento diante o pranto derramado?

Diante as horas que não passam...

Diante o tamanho vácuo?


A lucidez de não chegar o tempo...

As horas pesando diante tamanho sofrimento...

Os dias que passam lentos...

As madrugadas tão silenciosas...

As horas que jazem mortas...


Estátua a moldar o vento...

Flor morrendo entre o lodo...

Deitando a sorte em agonia...

Diante os dias a grosseiro modo...


Estando agora mudo, surdo e cego...

O abismo clama minha alma...

Ah sem ti como é penoso viver...

Sem estar junto a ti agora...


Hoje não sou eu nunca por inteiro...

A vida perdeu a cor...

A alegria alheia me aborrece...

Nada mais sei o que fazer...


Vem...

Volta para mim e me ame...

Não me deixe assim tão opaco...

Preencha meu coração...

Que sem ti vive assim...

Tão fraco...


Sandro Paschoal Nogueira

Dose de rum...


 


Eu quero ver você numa piscina de óleo fervendo...

E eu aqui te oferecendo uma dose de rum pra você se esquentar...






I Wil surviver


 Eu vou sobreviver...




Doida desalmada


 

Doida, desalmada e atrevida...




Foram me chamar...

 


Foram me chamar...

Eu estou aqui o que que há?




Você me ama?


 



Não mais...








 

Nada fica

 





Mas tudo passa...

Tudo passará...

E nada fica...

Nada ficará...

Cinderela









 Venha de onde vier...

Chegue de onde chegar...

Ainda bem...








 Ainda bem...

Que agora encontrei você...

Puta rica

Puta rica






 A puta pobre é despeitada com  puta rica...


Luxúria


 


Meia noite chega...

Querem acabar comigo...

Imprensarem -me em algum lugar escuro...

Longe das vistas...

Cheios de perigo...


A bebida entorpeceu minha mente...

Entrego-me aos sentidos facilmente...

Arrastando-me com ar de murta...

Somente testemunham as pedras na rua...


A luxúria me chama intensa...

Até quase esmagar o coração...

Carne branca e palmitante...

Sob muitas mãos...


Músculos hérculos da serpente...

Fazem-me revirar os olhos...

Tampam-me os meus gritos...

Ferozes algozes...


Quisera eu exausto quando...

No delírio da gula encontrasse-me absorto...

Pudesse ao delírio recomeçar...

Entre os abraços a me domar...


Pedras silentes...

Continuem assim...

A aurora se avisinha...

Amanhã outro dia...


Só terei lembranças bem sentidas...

Da noite por mim ...

Tão bem vivida...


Sandro Paschoal Nogueira

Vadia


 

Vadia...

Permissiva...

Seu outro lado da alma vazia...

Estando torpe...

A qualquer um se entrega...

Arrepende -se?

Nunca...

Amanhã...

Outra madrugada...

Outro dia...


Profana...

De estirpe deitando-se na lama...

Sua desculpa...

A bebida...

Disfarçando a alma fria...


Até sobre um formigueiro se deita...

Não sente as picadas...

Mas contorce-se sob as mordidas...


É tão rasa...

E tão funda...

Promíscua...

Feliz em ser confundida com uma puta...

Vagabunda...


De classe relevante...

A qualquer pertence em poucos instantes...

Na madrugada não tem casa...

Não sonha...

Não cria asas...


Um dia quem sabe se aborreça...

De ser uma meretriz das sarjetas...

Mas enquanto esse dia não chega...

Com vagabundos se deleita...


E é feliz desse jeito...

Não conhece outra forma de ser...

Apenas a conhece a lua...

E as pedras frias da rua...

Quisera apenas um desejo ter...

Ser pura...

Para toda noite se perder...


Sandro Paschoal Nogueira

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Sujos


 


Antes certo que não se quisera passo, mas o silêncio...

Gente suja...

De pés feios...

Falando alto...


Embriagados com putas velhas...

Roupas surradas...

Cheirando a fumaça...


A noite decreta o cancro...

Qualquer música degredada em pranto...

Gargalhadas torpes...

Viciados da rotina...

Quem diria...


Um pensamento que não se esconde...

Nem mesmo disfarçados pelas bebidas pagas...

Das pedras que colho...

Só gente cambaleando...

Sujos...

Feios...

Excrementos de seres humanos...


Um só destroço...

Corpos fedidos e suados...

Rugas fundas...

Dentes tortos e amarelados...


Esquecendo para sempre as loucuras do vinho atrevido...

Falam cuspindo...

No Português errado...


Buscando distração...

Quem sou eu de fato...

Entre os porcos...

Um diamante jogado...


Meu Deus...

Meu Deus...

Tratar a todos com respeito...

No túmulo não há diferença...

Mas será que de fato..

O céu pertença a essa gente tal como rato?


Recolho-me em sonho e mágoa...

Óh tristeza descendo em meu olhar...

Sonho moribundo...

Gente feia...

Não há como se misturar...


Diz-se que a solidão torna a vida um deserto...

Mas antes só que mal acompanhado...

Posso ter respeito...

Mas amor é negado...


Sei que embora essa luz nem para todos tenha o mesmo brilho...

Tudo o que existe em nós de grande e puro...

Nem sempre esconde o lamento...

Dobrada é minha ventura...

Em poder escolher com quem convivo e me deito...


Sandro Paschoal Nogueira

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

visita


 


Misteriosa visita a quem aguardo...

Tua vontade que me bate...

Enrendando meus cuidados...


Um culto por mim cultivado...

Tão pouco de mim julgo que o mereça...

Antes que a noite desapareça...

Fazendo-me atrevido...


Fremente volúpia pecadora...

De lábios macios e tentadores...

Onde o amor repousa lascivo...

Onde conheço mil sabores...


Os rumores do mundo são esquecidos...

Quando em seus braços me perco e me acho...

Seus sussurros alongam meus ouvidos...

Que representam em terra meu paraíso...


Despojo-me dos pudores e me dispo...

O toque torna-se mais aflito...

Faço de minha alma uma lâmpada de cego...

E dou-me por rendido...


Assim a natureza fala...

As portas de ouro vão se abrindo...

Florida canção que nos deleita são os nossos gemidos...

E por fim...

Transfigurados de emoções...

Adormecemos sorrindo…


Sandro Paschoal Nogueira

sábado, 13 de janeiro de 2024

Veneno


 

O veneno das minhas ironias...

Hás-de beber entre suas lágrimas vazias...

E hás-de encontrar-me em teu surpreso olhar...

A minha face fria...


O meu prazer de outrora...

Emigrou...

Partiu...

Não mais está com você...


Podes te dar por pago...

Que este é o preço da vida e todo o seu valor...

Amei-te em dolorosos delírios...

Mas já nada sinto...

Nada restou...


Que seja sonho apenas a esperança...

Agora eu bebo a vida a longos tragos...

Sigo meu feliz caminho...

Deixo-te como sempre quis...

Sozinho...


Sandro Paschoal Nogueira

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Ilusão morta

 



Grande ilusão morta no espaço tempo...

Do fundo do copo...

Disfarçando a espera de um qualquer sofrimento...


Pelas saudades que lhe aterram...

Procurando no amor a felicidade...

Entre conversas vãs...

Entre os descasos sem cuidados...

Pertencer a quem souber...

Apreciar os trejeitos...


No íntimo mais profundo...

Ignora o silêncio e o eco...

O que o coração murmura, a voz não diz...

Entorpecido sente-se feliz...


E vão-se em mar a fora...

Os sentidos embriagados e mal sentidos...

Que tudo é ilusão que esta alma sente...

Se nada há de novo e tudo o que há...

Sentir prazer em deitar-se com o perigo...


Que alguém lhe mostre a tua imagem, como tantos, sem sentido...

Sem expor à vergonha...

Sem alardear seus gemidos...


Pobre esperançado...

Que anda crê na ilusão…

Do amor…

Da fantasia...

Que nas portas dos bares aguarda...

Alguém a lhe acompanhar pelas ruas...


Tudo posso esquecer em minha vida...

As visões em minhas estradas percorridas...

Só não consigo me esquecer no entanto...

Dessa figura de alma nua...


Sandro Paschoal Nogueira

domingo, 7 de janeiro de 2024

Rumor


 


Do rumor do mundo...

Meus pés vão fugindo...

Desfolham-se ilusões e vão-se sem apegos…

Quero mais óh Senhor...

Um sonho, paz e sossego...


Que sigam em mares amargos...

Ironias, falsos júbilos e descontentamentos...

Que singrem os tolos desejos...

E soprem novas esperanças...

Em meu coração tão ressentido...


Os meus vinhos por mim bebidos...

Em cálices aos céus apresentados...

Nas mesas de meus inimigos...

Tenham-me servido...

Para manter-me o coração alforriado...

E o espírito mais leve fazendo-me da ingratidão ter-me esquecido...


Que rolem e que finjam os mascarados...

Os incansáveis trabalhos não concluídos...

Os desejos gastos e os amores perdidos...


Os mistérios contra mim conspirados...

Não frutifiquem suas sementes...

E que em meus caminhos...

O amor seja sempre doce e clemente...


Se queres saber sua grandeza...

Saibas que nem tudo é perfeito...

Mas que nunca deves perder a pureza...

E que sonhar seja preciso...


Muitas vezes ansioso espreito sigo...

Por caminhos não percorridos...

Atento ao vento e ao seu conselho amigo...

Somos apenas nós...

Que traçamos nosso destino...


Mil vezes abro a boca…

E nada digo...

Outras tantas falo sem pensar...

Podes ser igual a todo o mundo...

Ou diferente como convier...

Só não podes nunca...

Perder a vontade de amar e viver...


Sandro Nogueira

Nudez


 

Má fada me encantou e aqui estou...

Imortal serenidade repleta de  desejos e saudades...

Entrada livre para o desconhecido…

Meu Deus Tu não mudas o programa...

E a vida rápida escoa...

Tal qual apaga-se uma chama...


Voz com que te chamo...

Desencanto...


Meus olhos não Te vêem...

Solidão que de Ti espero...

Gemo e canto...

Como qualquer ninguém...


Teu grande amor que é Teu maior segredo...

Basta-me de enganos... Mostra-me sem medo...


Não posso mais...


Ando tão cheio de vazio...

Ouço meu coração ardente e solitário...

E não vejo em meus pares algum compromisso...


Estou no ventre da noite...

E tal como Lázaro caminho sem destino...

Uma nudez de abandono...

No fervor da espera...

De que tudo não seja só um mau sonho...


Sandro Paschoal Nogueira

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Quisera


 

Ah quisera eu que as pedras não fossem mudas...

Que no fundo dos copos encontrasse as verdades...

Que as palavras fossem de fácil entendimento...

E que os amores não fossem desfeitos...


Quisera eu que meus pés descalços não fugissem...

Do tempo que a tudo destrói e forma fuligens...


Que as ilusões não se desfolhassem...

Que os sonhos não perdessem as virtudes...

E que amando só conhecessemos  as verdades...


Às vezes uma dor nos desespera...

E a verdade nos engana...

Então o desalento clama...

E a vida queremos que encerre...


Então para que nunca nada se perca...

O desejo cultivamos mesmo amargo e rude...


E diante das auroras que se avizinham...

Para que o sonho viva de certezas...

Para que o tempo da paixão não mude...

Por bem vos quero...

E morro despedido...

Na esperança de um vão contentamento...

Em saber que nem tudo está perdido...


Sandro Paschoal Nogueira

Papéis


 

Não há papel que conte a minha vida...

Eu caminho por eles...

Eu sei que há diferenças

E ainda bem que as há...


O meu desejo canta...

Onde estás?


O vento levará os meus sonhos?

A noite cai de bruços...

Como existir esquecimento ?

Mas o que vejo?

A luz escurecer...

A amargura de olhar e não ver...

O ter e o perder...


Vago dia após dia...

Estranha quimera...

Estranhas fantasias?

Quais ruas escutam meus passos?

Quais estradas colhem meu olhar?


Aos solavancos do destino...

Onde estarão aqueles que me embriagam de calafrios?


Os ventos recolheram...

E diante de mim...

Até as estrelas emudeceram...


Em mim a vida força sua invasão...

De onde vem a voz que me rasga por dentro?

Sem luz nem eco...

De onde vem esse aperto no peito?


Entro abandonado...

Nesses muitos corações que encontro desavisados...

Mortos aos caminhos...

Por onde insisto e também sigo...


Não quero ser quem sou...


Sandro Paschoal Nogueira

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Pecado


 


Percebo afinal meu pecado...

Em silêncio mais profundo...


Faria piedade a toda a gente...

Esta pena, esta dor...

Este é o preço da vida e todo o seu valor...


Horas que perdemos...

Vão pelo espaço acompanhando os astros...


E todo este feitiço e este enredo...

Na luta dos impossíveis...

Tão profundo meu segredo...


Das profundas paixões...

Dor infinita...

De guerra e amor e ocasos de saudade…

Da alma o profundo e soluçado grito...

De que fui para ti só mais um neste vasto mundo...


Hoje triste ouço a solidão...

Da luz que não chegou a ser lampejo...

Da natureza que parou chorando...

Diante meu descontamento...


A vida é assim, uma ânsia…


Fazes o bem...

Que terás o mal por paga...


E o sonho melhor bem pouco dura...


Por tanto querer-te...

Recebi amarguras...


Pouco antes...

Nada agora...


E a princípio não percebi...


Como chegastes...

Partiste...

Mas levastes um pouco de mim...


Na profundidade dum desencanto...

Fiz-te doçura do meu coração...

Não compreendestes...


Mudarás, todos mudam...


Mais tarde em tua vida, um dia, hás de tentar

revolver da memória este tempo de agora…


E sentindo então o vazio...

Lembrarás do deixado para trás...


Não se vive outra vez...

E o tempo a tudo vence...

Fostes embora...

Mas fiquei em paz...


Sandro Paschoal Nogueira

Sede


 

Assim se desenterra toda a sede...

Todo o amor...

Todas as noites...

Uma a uma...

Toda a luz de cada dia...

E o meu coração que a ti espera...

Se alegra enquanto definha...


Vejo coisas que nunca antes tinha visto...

Coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar...


Tão certo que me aperto...

Que meu mal tanto me dura...

Vou mais fora de caminho...

Sem ti vou tão deserto...


Recantos escuros, em segredo...

Atrás das sombras que me procuram...

Desiludido ainda me iludo...

No que meus olhos mais indagam...


Pelas palavras que nunca disse...

Pelos gestos que me pediste...

E com este cuidado todo...

Perco de vista o meu ser verdadeiro...


E bem sabes...

Que até me ignorando...

Sou teu...

Por inteiro...


Sandro Paschoal Nogueira

Procura

 



Sombra que segue os desejos...

Alma que tanto procura...

Sem encontrar... 

Em ruas, conversas vazias...

Fundo de copos se aventura...


Doidos passos incontidos...

Império dos sentidos...

Enfim o copo vazio...

- "Enche outra vez vizinho"...


Vinhas de vinhos de oiro não bebidos…

Ócios e sossegos…

Desejados e outros sentidos...


Noite sucedendo noite...

Vertigem em qualquer leito...

Tanto faz...

Tudo tem jeito...


Amores, esperanças e desejos...

Quase os mal diz...

Eis que entrega seu coração...

De nada serve e vale...

Tudo é ilusão...


Dias mal gastados...

Noites mal dormidas...

Desejos de coisas esquecidas...

Lembranças de velhas feridas...


Incansável a tudo retorna...

Rotina a que se entrega...

Fraqueza que vira resistência...

Quando qualquer hora e hora...


Mas pois por vosso mal seus males vistos...

E todos os dias finjes te-los esquecidos...


Já nem vives...

Nunca aprendeste...

Vem de sua saudade, o que presume...

A ânsia de realmente viver...


Dizes que ficas tonto…

Hás de então ficar louco...

Tonto, o feio fica bonito...

O corpo só arde em desvario...


No entanto, o imaginário

desejo de alcançar...

Já nada mais importa...

Nem mesmo se terá outro amanhã...

Ou se terá...

No dia seguinte se arrependido...


Sandro Paschoal Nogueira

Grande ilusão


 

Noite calada, como num lamento...
Foi cena alegre...
Oh quão lembrado estou...

Grande...
Grande Ilusão...
Perdida nos abismos da memória...

Pelas saudades que me aterram...
Durmo...
E o que importa?
Já não vivo em mim...

Chora o vento…

Noites sem brilho...
Noites sem luar...
Dolorido canto deste penar...

Meu olhar se pousou e se perdeu...
Mas por certo, a fé ardente...
Não perdeu a sua viva claridade e persiste...
E na volúpia da dor que me transporta...
Ainda insiste...

Sinto-te longe...
Ó esperança quase  morta...

Entre esses vultos falantes porém mudos...
Sou eu mais do que eles...
Ou tenho igual fado?

Um soluço subindo a eternidade...
Coração...
Coração...
Nas veredas da vida a alma não cansa...

Alongo os vacilantes passos...
Sob o julgo do tempo...
Ergo o cálice e blindo...
Sorvendo sublime veneno...

Sangue...
Luar...
Distantes saudades...

Sandro Paschoal Nogueira

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Anunciação


 

Anuncia-se esperança noutro dia...


Um dia que me viste...

Se é que me viste...

Tirando da alma os bocados de tudo o que sinto...


Teia de um tempo...

Que o nada representou...

E que acabou...


Acumularam-se os invernos...

Diante eternos segredos...


Estava tudo pronto para receber a felicidade...

Esperei-te...

E não viestes...


Agora é em mim que procuro...

O que em ti não encontrei...

Sem amores...

Nem ódios...

Nem paixões...


Assim a minha vida se desprendeu...

Do muito que sonhei...

Em ser apenas teu...


Tudo é pó...

Mas nem tudo foi em vão…


Mesmo que o que arda e que nunca cure...

Quiçá em uma curva...

Eis-me diante de meu coração...


Sandro Paschoal Nogueira


Profundezas


 

Profundo deve ser meu futuro...

Em desejo e em procuras...

Enquanto o mundo vai de mim fugindo...


Passa o tempo...

Estremeçam as estrelas...

Desfaçam-se os mitos...

Assim segue o destino...

Enquanto caminho...


O que está ou não escrito...

A sorte e seu revés...

A dor...

Um lamento...

Novos amores...

O milagre de cada dia...

O sorriso de um momento...

Escolho meus caminhos...


Encantarei a noite...

Darei vazão aos instintos...

Já não mais presos dentro do coração faminto...


Um céu e nada mais é o que temos...

Não te assusta o mistério?


Vem...

Caminhe comigo...

Escute o sopro das canções dos anjos...

Ao pé de nossos ouvidos...


No entra e sai de um minuto...

Deste rapto do tempo foge um grito...

Da cegueira das paixões...

Logo após o delírio...


Bemdita e efêmera passagem...

Vem...

Caminhar comigo...


Sandro Paschoal Nogueira

Tempo


 


Podes, ó tempo, entrar...

Eu te convido...

Não o temo...

Não sinto perigo...


Alma incerta...

Não se distrai de ti...

Bem feliz eu sou...

Bem sei assim...


Não seja só delírios e desejos...

Mas amor que vive e brilha...

Que penetre o meu ser...

Sim, vivo e quente como a luz do dia...


As saudades que deixaste...

Crepúsculos de outrora...

Foram boas e bem lembradas...

Até mesmo nas horas mortas...


Mas tu foges de mim...

Foges a cada instante...

Por mais que eu corra...

Nunca está a meu alcance...


Então guardo os meu sonhos mais lindos e mais queridos...

Mantenho a luz da esperança, sempre acesa…

Por mais que eu em alguns instantes desfaleça...


No imaginário desejo de alcançar-te ergue-se o meu desalento…

Afinal para onde me guias?


Sandro Paschoal Nogueira

Vácuo morto


 


Não sei por onde ando e para onde vou...

O que tinha de ser já foi...

Da vida que foi e hoje não é...

Já não importa o que vier...


Olhai o meu coração que entre gemidos soluça...

Cidade morta...

Campo santo...

Que já não sabe o que faz...


Mas o que há de novo?

Nem imprevistos...

Uma vida sempre igual...

Oscilando entre o bem e o que há de mal...


O tempo se alonga e também para todos os dias...

Estranha situação...

Sem explicação...


Tédio extremo da desgraça...

Aguardando os fins de semana...

Para saber se algo muda...

Porém continua a sanha...


Vácuo noturno...

Fantasmas desfilando em espectros sudários...

Seguem pelas ruas cantando...

As horas mortas das fantasias perdidas...


Na floresta dos sonhos...

Atravesso no escuro...

Mundo estranho...


Alma que de aspirar em vão delira...

Onde está a lua?

Ilusão pura...

Cadê as estrelas?

Sumiram...


A minha eterna angústia de revolta...

Cabelos brancos dai-me, enfim, a calma...

De morar em uma cidade morta...

Que segue cantando pela rua...

As saudades mortas...


Cobra comendo cobra...

Irmão corrompendo irmão...

Nas cordas de um violão...

A vaidade se enrosca...


A meia noite a vida encerra...

Nem rosto atrás das vidraças...

Na manhã seguinte o féretro anuncia...

Semana que vem tem festa...


E a juventude passa...

Enquanto juntam as moedas...

Arrotando suas grandezas...

Enquanto à mesa...


Perdoai meu Deus...

A minha triste esperança...

Transformai meu coração seco...

No coração de uma criança...


Ah que saudade...

Da inocência perdida...

Hoje apenas sobrevivo...

Escondendo minhas feridas...


Ah lugar que nasci...

Lugar que me criei...

Acordai antes que o tempo tudo consuma...

Da vida que foi e hoje não é...


Sandro Paschoal Nogueira

Círculos


 

Círculo dantesco da loucura...

Viver, vibrar no brilho da lua...


Por entre as almas nuas...

Ser doido, alegre em maior ventura...


Encarando...

Rindo...

A vida que me tortura...


Sem ver a falsa bondade...

Das línguas nervosas...

E as pompas de serem quem não são...


As ilusões que a desventura transforma em pó e cinzas...

Dos ermos que bem conheço onde o vento passa e ri...


Não reparaste nunca?

Das almas que tanto anseiam e jogam suas cartadas...


Dos males feitos sem querer...

Amores mortos sem terem nascidos...

Nas madrugadas cinzentas e frias...

Em ruas tristes e vazias...


E no esplendor que perde e nem chegou a ser...

Bem triste a pantomima. . .

Onde no silêncio esquecido...

Muitos escondem a própria dor...


Sandro Paschoal Nogueira