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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O lobisomem de Tamandaré


 

O LOBISOMEM DE TAMANDARÉ


Pé na areia, coração disparado,

Passo apressado, olhar assustado,

Dizem que o uivo corta a escuridão,

É o lobisomem solto na escuridão.


Trova antiga que o povo repete,

Entre um gole e outro de aguardente:

“Se ouviu uivar, não fique a olhar,

Corre pra casa, vai te pegar!”


Metade homem, metade fera,

Maldição antiga que nunca espera,

Quando a lua cheia vem clarear,

Em Tamandaré ele sai pra caçar.


Mas há quem diga, rindo baixinho,

Que o medo é maior que o próprio caminho,

Pois o monstro vive mais no falar

Do que nos passos que vão te pegar.


Ainda assim, se a noite chamar,

E o arrepio subir sem avisar,

Reza, corre e não olha pra trás…

Vai que o lobisomem corre mais!


Quando a lua sobe mansa no mar,

Tamandaré começa a se escutar.

Não é só uivo, não é só temor,

É a alma chamando quem se esqueceu do amor.


O lobisomem não corre na rua,

Ele desperta quando cresce a lua.

Mora no fundo do peito humano,

No instinto antigo, no medo arcano.


“Vai me pegar”, diz a mente em aflição,

Mas quem persegue é a própria emoção.

É a sombra pedindo para ser vista,

Não como fera, mas como conquista.


Metade luz, metade escuridão,

Somos todos essa divisão.

Homem e bicho num mesmo olhar,

Aprendendo quando é hora de uivar.


Se você foge, ele cresce em poder,

Se você encara, começa a se dissolver.

Pois o lobisomem, ao se revelar,

Quer apenas ensinar a integrar.


E quando a lua enfim se deitar,

Você entende sem precisar falar:

Não era ele que vinha te pegar,

Era você chamando pra se libertar


Sandro Paschoal Nogueira

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Encontro


 

Saio sem mapa...

Sem promessa no bolso...

A noite aberta...

Um talvez no olhar...

Não espero milagres...

Só deixo o vento decidir onde vai dar...


Levo expectativas leves, quase nada...

Pra não pesar o passo...

Nem o coração...

Se vier riso, ótimo.

Se vier estrada, que seja  canção...


Talvez um encontro...

Talvez o vento...

Um bar qualquer...

Conversa sem fim...

Ou talvez apenas um simples momento...


Vou assim: “vamos ver o que acontece”,

Sem cobrar do mundo...

Sem pedir um sinal...

Porque às vezes é quando a gente não espera...

Que a vida resolve surpreender no final. 


Sandro Paschoal Nogueira

Lampejos


 

Ele não bebe pra esquecer,

bebe pra lembrar do desejo,

cada gole é um lampejo

do que insiste em acontecer.


O olhar promete e não fere,

Deixa rastro no chão.

A noite sussurra pecados antigos

e ele brinda aos inimigos


Não pede amor, nem perdão,

oferece presença inteira

Boêmio não por costume...

Há corpos que são origem

do incêndio que ninguém assume.


E no fundo do copo escuro

não mora o fim, nem a fuga —

mora um homem que seduz

sem pressa, sem culpa


Na luz fria da calçada,

um olhar firme, sem pressa,

o tempo passa — não pesa...

Há silêncio que revela

mais verdade do que a brisa.


Entre flores da camisa

e o brilho discreto do anel,

O copo erguido não é fuga,

é brinde à própria história...


No rosto, a noite repousa,

não como sombra ou cansaço,

mas como quem fez do passo

um verso que não se ousa.


Quem olha vê só a imagem,

quem sente entende o sinal:

há homens que viram poema

sem pedir permissão ao final.


Sandro Paschoal Nogueira